É... o mundo está louco! concluía eu ao observar da janela de meu apartamento as ruas do entorno que minhas vistas alcançavam, enquanto fumava meu maldito e confortante cigarro. Pessoas indo e vindo, subindo e descendo, comprando e vendendo, clamando e sussurrando, oferecendo e pedindo, umas tentavam chamar a atenção, outras, passar despercebidas.
Por alguns instantes mantive minha atenção no cruzamento de uma jovem e bem vestida mulher, que esbravejava dizendo estar atrasada, ao mesmo tempo em que tentava retirar, com potentes e eficientes tapas, da roupa de seu filho alguma sujeira que ele causara dada a sua falta de habilidade no manuseio do sorvete, que trazia em uma de suas pequenas mãos, com outra que carinhosamente recolhia em seus flácidos braços um pequeno cachorro, ao mesmo tempo em que buscava uma maneira menos arriscada e dolorosa para curvar-se, a fim de limpar as fezes que o animal dispensara na calçada.
Que mundo é esse? Ações, respostas, raciocínio, desempenho, dinamismo, praticidade, eficácia, consciência, soluções, planos, métodos, saídas, metas, políticas, rentabilidade, sustentabilidade, flexibilidade e equacionabilidade, tudo isso em prol do tal termo da moda: otimização, o que será que procuram as pessoas?
A busca por otimizar nosso tempo, transformou-se na nova corrida do ouro, na nova coqueluche do momento (que expressão antiga, credo!). E aí? Qual a finalidade desta busca, se por conta dela cada vez menos conseguimos desfrutar do nosso tempo da maneira que desejamos.
Todos nós enxergamos essa loucura cotidiana como se fosse uma máquina descontrolada, que nos submete e subjuga, em velocidade progressiva, impossível de ser detida ou desligada, que esmaga todos os que manquitolam, tropeçam, cansam ou por outro motivo não conseguem acompanhar sua progressão.
Quer saber, não sei de nada, só sei que a jovem mulher não aproveitou a oportunidade nem a boa saúde que a juventude lhe permitia, para curvar-se diante de seu filho e confortá-lo com palavras carinhosas, livrando-o do descabido sentimento de culpa, enquanto delicadamente limpasse a roupa do pequenino. Talvez quando atingir a idade da outra mulher com a qual cruzou, consiga agir com mais complacência, só que seu filho já se fará homem e, quem sabe, reste-lhe um cachorro para praticar os ensinamentos adquiridos em sua vida.
Ai de nós... pobres buscadores, despendemos nosso tempo buscando aquilo que não nos foi levado por ninguém, e um dia depois de cansados, alguns de nós, revirando velhas roupas no armário de nossas vidas, deparamo-nos com aquilo que aspirava-mos, ele estava ali, tão perto, o tempo todo, esquecido num dos bolsos daquela que em algum momento foi nossa roupa preferida, a mais alva e vistosa, a da dignidade humana, o respeito próprio.
Aliás, por falar em roupa, ando precisado de alguma mais adequada, a julgar pelo que vejo e ouço por aí, a que uso, além de barata está fora de moda.
Enfim o cigarro foi consumido ao mesmo tempo em que me consumia... Talvez deva ser isso que acontece conosco, na ânsia de sermos senhores acabamos por nos escravizar.